(foto do tumblr: http://pulsatingg.tumblr.com/post/138748638954/comfy-cozy-indoors-with-my-big-sweater-and-green)

-Essa cena não se encontra na estoria
-Trecho inédito 
 
 

"Karla

O grito saiu abafado. Eu estava assustada, respirava pela boca, minhas mãos tremiam e meu coração estava disparado. Havia tido mais um daqueles sonhos, eles me davam medo, sempre sentia que morreria, mesmo sabendo que era um sonho, era como se tivessem total controle sobre mim, mesmo não tendo.
Olhei em volta, eu não sabia onde estava, o lugar era escuro, havia um cheiro estranho, um lugar que não era aberto há muito tempo. Não era meu quarto no colégio, nem o da minha casa. Isso me obrigou a fechar os olhos e a lembrar dos últimos dias.
Uma louca me perseguindo na escola, um quase tiro, Allan dormindo no meu quarto no colégio, minha casa, Mark, minha calcinha branca que estava vestindo nesse momento, ele dizendo para eu esperar se o quisesse em sua vida, ondas de calor, tiroteio, correria, eu fugi...
Abri os olhos e empurrei as cobertas. Estava no apartamento do Allan, com uma blusa que tinha seu perfume. Estava tudo bem, foi apenas mais um sonho.
Entrei no banheiro e acabei entrando em pânico.
Não estava tudo bem, me querem morta e eu não sei o por que. Eu não sei o que está acontecendo, eu sinto medo, eu nunca senti medo, não dessa forma, eu não sei lidar com isso, meu psicológico esta acabando comigo. Não consigo dormir, não posso, os pesadelos não deixam.
Sentei no vaso desesperada, agoniada, frustrada, querendo que tudo passasse logo, que sumisse, eu não aguentaria, estava ficando pesada, tudo estava ficando dentro de mim, estava transbordando novamente, não duraria muito mais tempo até que acontecesse novamente.
Respirei fundo soluçando e só então percebi que estava chorando desesperadamente, era medo. Estava com tanto medo e assustada que não conseguia manter meu emocional.
- Karla? - Escutei a voz dele no quarto fazendo meu coração disparar, será que tinha tempo de limpar meu nariz, tinha certeza que estava escorrendo.
- No banheiro. - Minha voz saiu fanhosa, já que estava correndo para dar um jeito em meu nariz.
Eu estava tentando ao máximo segurar o choro e não desabar na frente dele. Allan já me achava uma chorona que fazia escândalo por nada.
- Está tudo bem? - Ele parou na porta do banheiro, eu podia o ver com clareza, tudo porque a luz da rua entrava pela janela do banheiro, estava segurando a arma em uma das mãos, mas ele parecia com muito sono e muito cansado, seu corpo estava ali por obrigação.
- Está. - Solucei mexendo no pedaço de papel higiênico que peguei para limpar meu nariz. - Abaixa essa coisa, por favor. - Pedi respirando pela boca com calma.
Allan travou a arma e a colocou em cima da pia que não estava muito longe de mim, encostou-se na parede, deu uma boa olhada em minha direção e respirou fundo.
- O que houve? - Encolhi os ombros.
- Meu cérebro banalizando os últimos acontecimentos. - Funguei novamente. Meu cérebro era tão patético. - É tão estúpido e ridículo, não tem nada de legal nisso. - Meus lábios tremeram.
- Eu sei. - Coçou os olhos, ele deveria estar morto de sono. - Mas é o modo que sua mente resolveu lidar com isso. - Fechou os olhos. Se duvidar ele já estava até mesmo dormindo. - Caramba, eu te escutei gritando, achei que alguém havia entrando aqui. - Abriu um dos olhos, mas duvidava muito que estivesse vendo alguma coisa.
- Foi assustador tanto quanto. - Murmurei ajeitando o pijama que ele havia me emprestado mais cedo.
- Sei que foi. - Concordou sonolento. - Eu vou voltar a dormir. - Revirei os olhos, era de se esperar. - Deve ter chá em um dos armários. - Allan nem se deu ao trabalho de abrir os olhos, apenas procurou sua arma com a mão.
- Certo. - Concordei o olhando. O que eu teria que fazer pra ele prestar um pouquinho de atenção em mim? Tirar a roupa e gritar avisando?
- A propósito, você esqueceu de tirar a maquiagem.
- Merda. - Sussurrei enquanto tentava limpar meus olhos e o via dando de cara com o batente da porta. Ele estava literalmente dormindo.
O escutei xingando por ter chutado algo em seu quarto que ele provavelmente não tinha ideia que estava no caminho e esperei até que entrasse no quarto e fechasse a porta.
Respirei pela boca novamente já que meu nariz estava entupido e dei um tempo no banheiro, só para ter a certeza que ele havia dormido. Pelo menos limpei meus olhos que estavam borrados me fazendo parecer um panda esquisito.
Quando sai do quarto estava tudo em silêncio me fazendo acreditar que ele já havia dormido novamente, ele pegava no sono rápido, então poderia ter caído da cama e mesmo assim não acordaria.
Acendi as luzes da cozinha e respirei fundo, eu demoraria uma vida para conseguir achar e fazer o chá. Que tipo de hospitalidade eu estava recebendo ali, ele deveria estar fazendo o chá para mim, eu nem sei onde fica a água.


Tive que abrir todas as portas e gavetas em busca do chá, que, felizmente ficava junto com o café, sim ficava, porque era a última unidade a que estava em minha mão, ele nem gostava de chá, nem sei porque tinha aquilo no armário. Nem precisei procurar muito por uma caneca, já que elas ficavam avista, ele tinha até que uma coleção bem legal, o problema foi para aquecer a merda da água. Eu deveria ir lá e jogar água gelada nele por me fazer passar raiva com aquela cozinha desgraçada que só o dono poderia entender, os talheres que ficavam logo na primeira gaveta perto da pia e perdido ali um estilete novo, tanto que a lâmina brilhava. Isso me fez respirar fundo algumas vezes, bater o estilete na pia, na mesa e em minha mão, estava ficando ansiosa, isso não poderia acontecer, não sairia nada de bom. Mas da mesma forma eu acabei colocando o estilete no bolso do pijama antes de voltar para fazer o chá, mesmo querendo me trancar no banheiro e fazer aquilo outra vez.


Nessa altura eu já havia esquecido os sonhos, minhas frustrações e medo. Tudo que vinha em minha cabeça era que ele estava dormindo muito próximo de mim, tão próximo que se eu fizesse qualquer coisa ele correria até mesmo dormindo e isso me fazia pensar se eu deveria ou não ir até aquele quarto.
A parte má dizia que eu deveria com toda a certeza ir até aquele quarto, me deitar junto com ele até fazê-lo implorar.
A parte boa dizia que não era certo e que se ele me rejeitasse isso acabaria comigo, me faria usar o estilete que estava em meu bolso naquele momento."


Lake Forest Academy
Danielle Borghi




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